Pessoa segurando um saquinho cheio e fechado com um cifrão desenhado.

Por que dez por cento?

26/05/2022
Por Rosh Gilberto Branco

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Nos dias de hoje parece que um espírito de ser “do contra” tem tomado conta da vida de muitas pessoas.

Além dos chamados “desigrejados”, que também abarca os “desinagogados”, agora também encontramos os “anti-dízimos” alegando que isso não está na Torá, que era somente para o templo de Jerusalém, que era para dar em alimentos etc. etc. etc.

Interessante, fico imaginando os levitas e sacerdotes recebendo apenas cereais, odres de vinho e partes dos animais sacrificados, e ainda assim manterem tudo funcionando no templo, comprando o azeite para iluminação e unções, material para fazerem o incenso, reparando as instalações com madeira de cedro, ouro, prata e bronze, mantendo as roupas dos sacerdotes, provendo as necessidades dos descendentes de Levi e suas famílias somente com os alimentos, mas nada das necessidades básicas da vida como objetos pessoais, roupas para a família, utensílios domésticos e tudo mais que precisassem, tudo sem dinheiro.

Isso porque os anti-dízimos dizem que não se levava dinheiro para o templo, os dízimos eram só comida.

Mas é isso mesmo o que a Torá diz? Vamos ver.


A primeira referência sobre dízimo encontramos em;

E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou seus inimigos em suas mãos". E Abrão lhe deu o dízimo de tudo. Gênesis 14:20

Será que o despojo de guerra que trouxeram era só comida?

Eu creio que não.


Jacó também se comprometeu a dar o dízimo;

E esta pedra que hoje coloquei como coluna servirá de santuário de Deus; e de tudo o que me deres certamente te darei o dízimo". Gênesis 28:22

Muitos dirão que o seu dízimo foi de ovelhas, e gado em geral, mas Jacó disse “de tudo”, será que ele só tinha animais como parte da sua riqueza?

Ainda que os animais também fossem moeda de troca nos tempos antigos, e mesmo porque as moedas só foram “inventadas” no Século VII AEC, veremos que ele também tinha outros tipos de bens.

A prata e o ouro eram negociados pelo peso, ainda não eram cunhados como moedas.

Então Jacó ajudou seus filhos e suas mulheres a montar nos camelos, e conduziu todo o seu rebanho, junto com todos os bens que havia acumulado em Padã-Arã, para ir à terra de Canaã, à casa de seu pai Isaque. Gênesis 31:17,18

Além do rebanho, ele tinha outros bens.

Tendo voltado de Padã-Arã, Jacó chegou a salvo à cidade de Siquém, em Canaã, e acampou próximo da cidade.

Por cem peças de prata comprou dos filhos de Hamor, pai de Siquém, a parte do campo onde tinha armado acampamento. Gênesis 33:18,19

Como conseguiu as cem peças de prata? Negociando os seus bens e isso foi incluso no seu voto de dizimar.


Contudo, fica claro que a maioria das pessoas negociavam com a sua produção, pois como foi dito antes, os animais e a produção agrícola eram moeda de troca, então o dízimo era feito com isso. E como ficariam as pessoas que não produziam esses insumos, mas prestavam serviços?


Será que haviam celeiros e frigoríficos na tesouraria do templo?

Um sacerdote descendente de Arão deverá acompanhar os levitas quando receberem os dízimos, e os levitas terão que trazer um décimo dos dízimos ao templo de nosso Deus, à casa do tesouro. Neemias 10:38

Usemos o bom senso!

Tanto havia oferta de alimentos quanto de bens.


Como ficaria hoje em Israel se ainda existisse o templo levando em conta que a criação de animais e a agricultura já não são os principais meios de obtenção de renda, onde a maioria das pessoas obtêm os seus recursos com outras atividades e só recebem dinheiro?

Não haveria dízimo no templo?


Vejamos no Brit Chadashá;

Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho. Lucas 18:12

Será que o salário desse fariseu era em farinha?

Não parece ser o caso.


Muitos não atentam para os detalhes deste texto;

Tragam o dízimo todo ao depósito do templo, para que haja alimento em minha casa. Ponham-me à prova", diz o Senhor dos Exércitos, "e vejam se não vou abrir as comportas dos céus e derramar sobre vocês tantas bênçãos que nem terão onde guardá-las. Malaquias 3:10

De fato, muitos dízimos eram dados em víveres, mas o templo precisava mais do que isso, então a função do tesoureiro era administrar as necessidades do complexo. Deduzo que alguma parte seria convertida em dinheiro ou negociado conforme a necessidade.


Negócio certo no lugar errado;

Yeshua entrou no templo e expulsou todos os que ali estavam comprando e vendendo. Derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas, Mateus 21:12

Por que será que havia cambistas no templo? Não deveriam estar somente na rua dos comerciantes fora do templo?

Ora! É porque as pessoas precisavam converter dinheiro estrangeiro para a moeda local para ofertar.


Observemos que até agora todas as referências realmente se referiam ao templo oficial de Israel e ao sustento da tribo de Levi. Isso é fato.

E o que dizer dos templos fora de Israel?

Agora o assunto é outro, vamos lá!


Um templo;

... qualquer edifício destinado ao culto religioso.

Nesta definição incluímos as igrejas e sinagogas.

As sinagogas passaram a existir durante o cativeiro dos judeus na Babilônia, e as igrejas quando comunidades de messiânicos se reuniam em um locar definido.

As sinagogas são citadas no Brit Chadashá, mas não os templos cristãos, pois as chamadas igrejas que aparecem se referem a comunidades, já os edifícios com o propósito de ser um local de reunião das igrejas surgiram algum tempo depois da dispersão dos primeiros messiânicos de Jerusalém.

Tanto a sinagoga (knesset do hebraico), quanto a igreja (ecclesia do latim, que por sua vez vem de Ekklisía do grego) tem o mesmo significado, que é assembleia, ajuntamento ou reunião, que primariamente se refere às pessoas que formam o agrupamento e secundariamente designa a edificação onde essas pessoas se reúnem. Essa edificação será classificada como templo.

Certamente que a Torá nunca se referiu a esses templos, portanto toda referência aos dízimos diz respeito ao templo de Jerusalém e aos levitas e sacerdotes (koanim).

E como ficam então esses templos?

Bem, na realidade, se o templo era sustentado pelo povo de Israel que o utilizava, da mesma forma os demais templos devem ser suportados pelos seus usuários.

O templo de Jerusalém já não existe mais desde o ano 70 EC, portanto nenhum dízimo é entregue a ele desde essa época.

Estaria o assunto encerrado? Depende de como vemos o tema!

Já não precisamos apresentar sacrifícios pelo pecado no altar, mas devemos nos reunir para adorar, confraternizar e proclamar a mensagem de Yeshua, e para isso precisamos de um lugar destinado a ser um templo para nós e a partir do momento que decidimos isto iremos investir na sua existência.


No começo, quando a divulgação da mensagem de Yeshua ainda era insipiente, algumas casas eram suficientes para comportar uma pequena comunidade;

Áqüila e Priscila os saúdam afetuosamente no Senhor, e também a igreja que se reúne na casa deles. 1 Coríntios 16:19

Mas com o passar do tempo o número começou a ficar maior, e como era necessário eles se reunirem começaram a investir em construções adequadas para comportá-los e formarem ambientes favoráveis para a adoração ao Messias de Israel.

Isso não foi uma instrução nem de Yeshua e nem da Torá, mas foi sim uma necessidade natural da sociedade messiânica local. Assim, em todas as localidades do mundo onde a mensagem de Yeshua era anunciada, começaram a surgir grandes comunidades que construíam seus templos cada vez mais adequados ao número de frequentadores. Surgiram também as organizações para administrar os bens da comunidade, que foram evoluindo de acordo com as necessidades.

É óbvio que muito cedo surgiu a necessidade de se investir para que essas organizações pudessem se manter e como todas eram fundamentadas na Torá não foi difícil que a usassem como modelo para o seu funcionamento.

As referências bíblicas foram valorizadas e assim adotaram para os fiéis em todos os lugares o princípio de que deveriam ofertar voluntariamente os recursos para as construções e manutenção dos investimentos, além de sustentar os líderes espirituais do grupo.

Qual o modelo adotado? Bem, foram os dízimos e ofertas voluntárias como citadas na Torá e não mensalidades como os clubes seculares fazem. Esse foi o modelo.

Como toda organização humana, essas associações também estão sujeitas às falhas humanas, e a visão original pôde ser deturpada e interpretações foram distorcidas, mas as falhas de alguns não devem afetar o todo.

Vamos tratar de alguns pontos que julgo pertinentes sobre o tema com as seguintes considerações;


1- O dízimo é uma ordenança para a Igreja?

Resp.- Não, não há nenhuma referência nas Escrituras que orientem sobre o funcionamento das comunidades messiânicas.

2- Dar o dízimo é garantia de prosperidade?

Resp.- Não, muito associam prosperidade financeira à contribuição com dez por cento da renda, não discernindo o que era destinado ao templo em Jerusalém do que se convencionou às contribuições comunitárias messiânicas. Se isso fosse uma realidade conforme alguns pregam, todos os fiéis que contribuem seriam ricos.

3- Dar o dízimo nos faz mais espirituais?

Resp.- Não, isso é uma inversão de valores, quem é espiritual contribui com alegria, quem não é espiritual não o faz.

4- Dar o dízimo é garantia de vitória em todas as coisas?

Resp.- Não, uma vida de obediência às palavras de Yeshua é garantia de uma vida abençoada pelo Eterno. Se não for assim qualquer pessoa, mesmo sem confiança na Torá, faria investimentos em uma comunidade e se daria bem.

5- Não dar o dízimo faz com que alguém seja condenado?

Resp.- Não, uma vida longe da vontade do Eterno leva à condenação, o dízimo não está vinculado a isso.

6- Yeshua disse que aquele que não der o dízimo será amaldiçoado?

Resp.- Não, Yeshua citou que mesmo aqueles que dão o dízimo de cada detalhe, mas desprezam o mais importante poderão ser amaldiçoados;

Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas têm negligenciado os preceitos mais importantes da Torá: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Vocês devem praticar estas coisas, sem omitir aquelas. Mateus 23:23


7- Yeshua disse que aquele que não der o dízimo ficaria fora do seu rebanho?

Resp.- Não, não há nenhuma referência sobre isso.


PORÉM......

Deixem todos de dar os dízimos e ofertas e as igrejas e congregações messiânicas irão a falência e fecharão.

A contribuição sugerida de 10% dos rendimentos baseada na Torá é a maneira mais prática de uma organização religiosa ter o seu sustento e pagar as suas contas.

O fato de existirem pessoas que ensinam coisas erradas sobre o dízimo, pressionam os membros a contribuírem acima das suas posses sobre falsos pretextos bíblicos, líderes que fraudam as contas de suas organizações e fazem mal uso desses recursos, não anula a importância dessas contribuições. (Geralmente a extorsão vai muito além do dízimo.)

Essas pessoas que fraudam a fé de pessoas ingênuas prestarão contas diante do Eterno, disso eu não tenho a menor dúvida.

Quem tem fé para contribuir o faz por amor ao projeto do Eterno e contribui não para receber alguma coisa em troca, mas pelo simples desejo de cooperar. O dízimo pode ser apenas uma referência e a contribuição não fica restrita a um valor definido e limitador.

Cada um dê conforme determinou em seu coração, não com pesar ou por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria. 2 Coríntios 9:7

Vemos que a contribuição não deve ser considerada nem como obrigação.


Sendo realista, o Eterno pode até abençoar o "dizimista" (sendo que Ele não tem obrigação nenhuma de abençoar), mas não será pelo dízimo em si, mas pelo amor e desprendimento que a pessoa tem ao próprio Deus e Salvador de sua vida, por querer ajudar a manter um local onde se reúnem pessoas que compartilham a mesma crença e desejam estar juntos exercendo a divulgação da mensagem de Yeshua e onde as pessoas receberão as instruções de como viverem os ensinos da Torá.


Quem não quer contribuir, não o faça, o Eterno não precisa do seu dinheiro ou dos seus bens, os que desejam contribuir são os que tem amor pela comunidade e desejam dela participar.

O melhor exemplo do que é contribuir espontaneamente está descrito em;

Um homem chamado Ananias, juntamente com Safira, sua mulher, também vendeu uma propriedade.

Ele reteve parte do dinheiro para si, sabendo disso também sua mulher; e o restante levou e colocou aos pés dos apóstolos.

Então perguntou Pedro: "Ananias, como você permitiu que Satan enchesse o seu coração, a ponto de você mentir ao Espírito Santo e guardar para si uma parte do dinheiro que recebeu pela propriedade?

Ela não lhe pertencia? E, depois de vendida, o dinheiro não estava em seu poder? O que o levou a pensar em fazer tal coisa? Você não mentiu aos homens, mas sim a Deus".

Ouvindo isso, Ananias caiu e morreu. Grande temor apoderou-se de todos os que ouviram o que tinha acontecido. Atos 5:1-5

Kefa deixou bem claro que ele não era obrigado a dar nem um “shekel” daquele dinheiro para a comunidade, mas pelo fato de ter mentido para ser visto como homem generoso por todos o levou à ruína perpétua.

Uma igreja ou comunidade messiânica é lugar para os que tem amor a Deus e aos seus irmãos na fé, quem não se identifica com isso não é obrigado a participar e nem contribuir, mas é muito errado alguém combater a confiança dos outros dizendo que não devem contribuir como desejarem.

Quem é você para julgar o servo alheio? É para o seu senhor que ele está de pé ou cai. E ficará de pé, pois o Senhor é capaz de o sustentar. Romanos 14:4


Por fim, é importante que cada um saiba exatamente o que está fazendo.

Quando contribuímos não estamos barganhando com o Eterno, Ele não é comerciante de vida espiritual, Ele não depende de nós e não aceita subornos.

Quer ser abençoado? Seja humilde, aprenda o que Yeshua ensinou, seja ousado no seu testemunho, dedique-se à comunidade onde resolveu conviver, use os seus talentos para edificação do Corpo de Yeshua e, se necessário, disponha os seus bens para o bem comum.

Tenham o cuidado de não praticar suas ‘obras de justiça’ diante dos outros para serem vistos por eles. Se fizerem isso, vocês não terão nenhuma recompensa do Pai celestial. Mateus 6:1


E também;

Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam.

Mas acumulem para vocês tesouros no céu, onde a traça e a ferrugem não destroem, e onde os ladrões não arrombam nem furtam.

Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração”. Mateus 6:19-21


Querem pertencer a uma comunidade? Contribuam com aquilo que puderem, assim todos ganharão com isso.

Escrito por

Rosh Gilberto Branco

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