Construindo uma cerca ao redor da Torá

23/08/2019
Por Daniel C. Juster, Th.D.

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A famosa máxima rabínica de “construir uma cerca ao redor da lei” foi originalmente publicada no tratado talmúdico, Pirque Avot (Ética dos Pais). O pensamento básico é o seguinte: não queremos violar a Torá. Se criarmos leis extras para proteger a Torá e obedecermos essas leis extras, então não chegaremos perto de desobedecer a Torá. Diversos requisitos rabínicos podem ser entendidos como tentativas de proteger a Torá dessa maneira.

O exemplo mais comum de proteger a Torá são as leis de Kashrut (leis alimentares judaicas), especialmente as leis referentes a leite e carne. A Torá nos exorta a não ferver um cabrito (um bode) no leite de sua mãe. Esse comando está no contexto da prática pagã cananéia. É também uma óbvia deferência humanitária à vida animal. Para proteger essa lei, os rabinos decidiram que comer leite e carne juntos, mesmo que não do mesmo animal, deveria ser evitado. Uma vez que isso foi aceito, eles determinaram que precisávamos de horas de separação entre refeições de carne e leite, de modo que o leite e a carne não fossem cozidos juntos em nosso sistema digestivo. Uma vez que isso foi aceito, fomos obrigados a ter pratos separados para leite e carne, uma vez que existe a possibilidade de partículas de carne ou leite serem deixadas no prato e serem misturadas e comidas. No caso de Kashrut, uma nova cerca é feita para cada nova lei rabínica!

Outros acréscimos da lei rabínica

Este é um lado do legalismo rabínico, a multiplicação de leis para proteger a Torá. No entanto, os rabinos deixem de ser misericordiosos. Às vezes, quando uma lei bíblica era vista como muito severa, decretos rabínicos eram feitos para mitigar o rigor da lei. Por exemplo, multas monetárias tomam o lugar de cortar uma mão ou tirar um olho.

Em Israel, há uma grande controvérsia entre as autoridades ortodoxas. Diz respeito ao ano sabático e as ordens bíblicas de que os campos sejam deixados em descanso. Alguns seguem o ensinamento rabínico que permite que as plantações sejam plantadas no ano sabático, vendendo a terra a um gentio por um ano. Outros rabinos rejeitam essa maneira de contornar a lei.

A lei judaica rabínica desenvolveu-se em três direções: primeiro, são as aplicações criativas da lei para novas circunstâncias, que todos os sistemas jurídicos em todas as sociedades devem realizar. Em segundo lugar, é a multiplicação desnecessária de leis. E terceiro, são maneiras de contornar a lei. Yeshua abordou essas tendências na Nova Aliança quando acusou os fariseus de invalidarem a Palavra de Deus por suas tradições (Mateus 15: 3).

 

Desenvolvimentos em todos os sistemas legais

Para não sermos excessivamente críticos com os rabinos, devemos observar que todos os sistemas legais civis em todas as sociedades desenvolvidas fazem o mesmo que o judaísmo rabínico. Devemos lembrar que o judaísmo rabínico é ao mesmo tempo um sistema legal civil e um sistema jurídico religioso. À medida que as leis se multiplicam, nos encontramos em uma situação em que a intenção da lei básica foi minada. A legislação é então obrigada a trazer reformas e devolver a lei à sua intenção mais básica de servir a verdadeira justiça. Isto talvez seja melhor visto no desenvolvimento de legislação para proteger os direitos do acusado. À medida que as legislaturas e os tribunais aplicaram a lei, tornaram cada vez mais difícil para a vítima do crime obter justiça. A intenção é boa; para evitar punir uma pessoa inocente. Às vezes, essa preocupação é mais enfatizada na lei. Por exemplo, pode haver certeza absoluta de que uma pessoa cometeu um crime, mas como não foi lido corretamente os direitos legais ao acusado, ele poderá sair livre. A vítima não terá justiça. Isso enfurece as pessoas. Às vezes a vítima faz justiça com as próprias mãos. Há até situações em que a vítima matou o criminoso.

Em vez de deixar o criminoso livre, o tribunal deveria punir o funcionário que violou a lei, mas não libertar o criminoso culpado. Isso resulta em estupradores culpados, assassinos e ladrões perambulando entre nós. Também temos assassinos culpados passando por um processo de apelação de 13 anos antes que a pena de morte seja promulgada. Durante todo esse tempo, aqueles que perderam seus entes queridos devem sofrer com este processo agonizante e não podem ter o caso encerrado.

Reaplicações são necessárias

Por outro lado, quando as circunstâncias mudam, algumas vezes são necessárias leis adicionais para preservar a intenção da lei original. Às vezes, as leis precisam ser qualificadas para que não resultem aspereza e injustiça desnecessárias. Algum desenvolvimento na lei é necessário. Embora, em geral, as legislaturas ocidentais passem leis de mais, algumas dessas novas leis são benéficas e importantes.

Leis Religiosas

Na vida religiosa, somos também tentados a multiplicar leis para impedir a violação da santidade. A Bíblia nos ordena a não nos embebedarmos. A mentalidade da cerca nos ordena a não usar vinho. Desta forma, nunca se embebedará. A Bíblia diz que devemos evitar toda a aparência do mal. Esta mesma mentalidade proíbe jogar bilhar porque os salões de bilhar são lugares ruins. Isso também é aplicado como uma proibição contra todos os filmes - até mesmo bons filmes, porque associa o participante a Hollywood, que geralmente é considerada má. No entanto, as pessoas que realmente querem fazer a vontade de Deus não são limitadas por tal sistema legal; em vez disso, devem permitir que sua consciência seja guiada pelo Espírito Santo e, dessa forma dinâmica, evitar o comportamento maligno.

O Problema com o Legalismo

O legalismo prejudica a justiça, a vida espiritual e a alegria. Minha opinião pessoal é que os crentes precisam guardar os mandamentos de Deus através do poder de Yeshua. Devemos também honrar tradições e aplicações dignas e belas, mas não transformá-las em lei. Além disso, devemos sempre buscar uma reforma legal em nossa sociedade para levar o nosso sistema legal à uma justiça mais simples. O Sermão da Montanha é muito claro. Yeshua, em toda a Sua autoridade divina, restaura a Torá ao coração e varre acumulações ilegítimas e excessivas de leis feitas pelo homem. Nós agora vivemos em uma Ordem da Nova Aliança, onde o espírito da Torá é primordial. Este não é um meio de contornar a Torá, mas é o caminho para cumprir seu verdadeiro significado.

Veja o artigo original aqui.

Escrito por

Daniel C. Juster, Th.D.

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