Um livro aberto com textos em hebraico e a borda de um talit cobrindo parte do livro

Carta aos Hebreus - Parte 1

20/08/2022
Por Rosh Gilberto Branco

Tempo de leitura: minutos


A carta aos Hebreus tem peculiaridades interessantes, estima-se que tenha sido escrita por volta do ano 65 da EC, seu autor é desconhecido, apesar de existirem propostas de autoria, nenhuma delas pôde ser confirmada.


O que se pode deduzir é que trata-se de um judeu de cultura helenística, familiar na arte da oratória, atento a uma interpretação pontual das passagens da Torá, percebe-se que utiliza frequentemente a versão dos LXX para apoiar os seus argumentos.

Podemos também perceber que esta Carta teria sido escrita por alguém muito ligada à cultura e tradição judaica.

Sem dúvida foi alguém bastante versado nos princípios messiânicos, provavelmente alguém que convivia com os shaliachim (apóstolos).


O início da carta não traz apresentação nem saudações, mas vai direto ao assunto sobre Yeshua;

Há muito tempo Deus falou muitas vezes e de várias maneiras aos nossos antepassados por meio dos profetas, mas nestes últimos dias falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e por meio de quem fez o universo. Hebreus 1:1,2

Esta é, sem dúvida, uma grande afirmação messiânica e ao mesmo tempo totalmente embasada na Torá. De fato, mostra uma continuidade ininterrupta da ação do Eterno sobre a humanidade, ou seja, o seu plano está em cumprimento contínuo com em uma linha única, um plano perfeito.

A afirmação de que o Criador falou dá grande credibilidade a todo texto bíblico, o que garante segurança da uniformidade da revelação divina.

Discordando de alguns “teólogos” contemporâneos que acreditam que o Criador foi fazendo experiências para ver se dava certo o que planejava para o homem, os teólogos do primeiro século (discípulos de Yeshua) sabiam o que estavam dizendo ao afirmar que o Eterno faz tudo dentro de um propósito e que prepara o mundo para cada evento planejado.

O escritor também deixa claro para os hebreus quem realmente é o Filho do Eterno, algo que deve ter provocado a mente de muitos israelitas desde o primeiro século até os dias de hoje.

Os shaliachim (apóstolos) não eram pessoas incultas ou facilmente manipuláveis, vemos que Yeshua escolheu pessoas ativas social e comercialmente que tinham desempenho cognitivo significativo para o entendimento do que iriam vivenciar durante o seu ministério, não eram pessoas simplórias ou incultas e todos eram homens conhecedores da cultura judaica, portanto devemos dar algum crédito ao que transmitiram em seus discursos e ao que escreveram.

Era do conhecimento de todos os messiânicos do primeiro século que Yeshua era o Filho do Eterno, e conforme o texto lido acima, era bem fora do entendimento comum o fato de que o Messias era intimamente ligado ao Criador a ponto de ter participado da criação do universo desde o Bereshit (no princípio), mas agora é fato revelado pelo Messias, ou segundo o texto, o Eterno falou através do Filho.


Dando sequência;

O Filho é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu ser, sustentando todas as coisas por sua palavra poderosa. Depois de ter realizado a purificação dos pecados, ele se assentou à direita da Majestade nas alturas, tornando-se tão superior aos anjos quanto o nome que herdou é superior ao deles.

Pois a qual dos anjos Deus alguma vez disse: "Tu és meu Filho; eu hoje te gerei"? E outra vez: "Eu serei seu Pai, e ele será meu Filho"? Hebreus 1:3-5

Cada frase aqui revela coisas importantes.

Por estes textos podemos excluir totalmente que o Messias seja um ser humano comum gerado por pais humanos, pois ninguém, sim, ninguém poderia ser elevado a esta declaração feita acima.

Encontramos a declaração de que o homem foi feito à imagem e semelhança do Eterno, mas não que alguém fosse e expressão exata do ser do Eterno.

Aqui também não tem lugar para o entendimento de que Yeshua foi um homem escolhido para ser o representante ou o embaixador do Eterno na Terra. Será que isso lhe daria o direito de sentar-se à direita do trono do Eterno? Que homem seria tão perfeito e sem pecados para poder ser escolhido para tão sublime missão? Isso contraria a palavra de Shaul que diz que “pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus, Romanos 3:23

Um simples homem poderia ser colocado tão superior aos anjos e adquirir um nome superior ao deles?

A qual ser criado o Eterno diria “eu hoje te gerei”?
São perguntas as serem consideradas!


Os próximos;

E ainda, quando Deus introduz o Primogênito no mundo, diz: "Todos os anjos de Deus o adorem".

Quanto aos anjos, ele diz: "Ele faz dos seus anjos ventos, e dos seus servos, clarões reluzentes".

Mas a respeito do Filho, diz: "O teu trono, ó Deus, subsiste para todo o sempre; cetro de equidade é o cetro do teu Reino.

Amas a justiça e odeias a iniquidade; por isso, Deus, o teu Deus, escolheu-te dentre os teus companheiros, ungindo-te com óleo de alegria". Hebreus 1:6-9

Isto é muito interessante, para os que se recusam a reconhecer a divindade do Messias, em meados do primeiro século era aceito que Yeshua e o Eterno eram de fato um.

O autor enfatiza a grandeza do Messias acima dos anjos.

No verso seis, onde o autor diz “anjos de Deus”, ele se baseia na versão dos setenta que traduziram Elohim como anjos, a despeito da maioria das traduções direto do hebraico traduzirem como deuses, isso porque ele escreveu a carta originalmente em grego para os judeus de fala grega, por isso usou a septuaginta.

Mas mesmo de acordo com a maioria que traduz como deuses, o contexto é aplicável conforme o Salmo 97.7, os deuses que não são deuses adorem o Eterno que é Deus e ao mesmo tempo ao Messias seu Filho, é o que o autor quis dizer.

Ele aplica vários textos do Tanach associados ao conceito da unidade entre o Eterno e o Messias como era o entendimento dos messiânicos em geral.


Agora os versos;

E também diz: "No princípio, Senhor, firmaste os fundamentos da terra, e os céus são obras das tuas mãos.

Eles perecerão, mas tu permanecerás; envelhecerão como vestimentas.

Tu os enrolarás como um manto, como roupas eles serão trocados. Mas tu permaneces o mesmo, e os teus dias jamais terão fim".

A qual dos anjos Deus alguma vez disse: "Senta-te à minha direita, até que eu faça dos teus inimigos um estrado para os teus pés"?

Os anjos não são, todos eles, espíritos ministradores enviados para servir aqueles que hão de herdar a salvação? Hebreus 1:10-14

O autor do salmo 102 expõe a grandiosidade e a eternidade do Criador e o autor da carta conecta o Messias a Ele.

No final novamente a superioridade do Messias é exaltada sobre os anjos.

Ao mesmo tempo temos uma boa descrição da finalidade e ministério dos anjos.

Primeiro ponto, eles são espíritos, portanto, para desmistificar o falso entendimento de que os filhos de Deus de Gênesis 6 que tomaram mulheres dos filhos dos homens fossem anjos, devemos usar a razão e o bom senso, como espíritos eles não são excitados por hormônios de reprodução, portanto jamais veriam mulheres belas como motivo de atração física, pois como Yeshua disse, os anjos não se casam e nem se dão em casamento, não existe anjo e nem anja, existe um espírito que atua de acordo com a ordem do Eterno. Também, precisamos pensar, se eram filhos de Deus também não fornicariam com as mulheres da Terra, isso é coisa dos mitológicos deuses gregos que espalhavam seus filhos bastardos semideuses na Terra, jamais seria coisa de um ser submisso ao Criador.

Na verdade, os anjos são espíritos que trabalham por ordem divina em favor dos que serão salvos, eles não tem autorização para interferir nas nossas vidas por vontade própria.


Enfim, neste primeiro capítulo, o autor enfatiza que toda palavra de Yeshua é de grande importância, porque Ele fala a palavra do Eterno, e se Ele fala a palavra do Eterno não deve ser menosprezado.


O autor da carta assume a grande importância da comunidade israelita reconhecer o caráter divino do Messias, pois ele continua na segunda parte a argumentar sobre o tema;

Por isso é preciso que prestemos maior atenção ao que temos ouvido, para que jamais nos desviemos.

Porque se a mensagem transmitida por anjos provou a sua firmeza, e toda transgressão e desobediência recebeu a devida punição, como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação? Esta salvação, primeiramente anunciada pelo Senhor, foi-nos confirmada pelos que a ouviram. Hebreus 2:1-3

Sabemos que anjos transmitiram mensagens para Abraão, Jacó, Daniel e outros, e muitas dessas mensagens foram importantes e até proféticas que se cumpriram, de forma que suas mensagens deveriam ser consideradas como vindas do Eterno, então como poderíamos desprezar as palavras de Yeshua, que é superior aos anjos?

As pessoas que ouviram as palavras que saíram da boca de Yeshua sentiram na pele o quanto ela é verdadeira e deram testemunho disso para nós.

Suas palavras sobre a salvação são revestidas de uma importância monumental, portanto qualquer pessoa que não somente a despreze, como também a difame prestará contas ao Eterno.


Na sequência;

Deus também deu testemunho dela por meio de sinais, maravilhas, diversos milagres e dons do Espírito Santo distribuídos de acordo com a sua vontade. Hebreus 2:4

Para o Eterno ser reconhecido por pessoas de coração duro, Ele se manifestou no Egito com sinais extraordinários e fantásticos, e tanto os egípcios como os israelitas, e até povos distantes, não tiveram dúvidas de que o Deus dos hebreus é um Deus verdadeiro e cumpridor das suas promessas, assim também o Eterno realizou grandes sinais durante o ministério do Messias e também depois através dos seus discípulos, com milagres de todo tipo imaginável.


Atentemos a este texto;

Não foi a anjos que ele sujeitou o mundo que há de vir, a respeito do qual estamos falando, mas alguém em certo lugar testemunhou, dizendo: "Que é o homem, para que com ele te importes? E o filho do homem, para que com ele te preocupes?

Tu o fizeste um pouco menor do que os anjos e o coroaste de glória e de honra; tudo sujeitaste debaixo dos seus pés". Ao lhe sujeitar todas as coisas, nada deixou que não lhe estivesse sujeito. Agora, porém, ainda não vemos que todas as coisas lhe estejam sujeitas.

Vemos, todavia, aquele que por um pouco foi feito menor do que os anjos, Jesus, coroado de honra e glória por ter sofrido a morte, para que, pela graça de Deus, em favor de todos, experimentasse a morte. Hebreus 2:5-9

A clareza com que o autor da carta entende os propósitos do Eterno é admirável.

O olam habá (mundo vindouro) é uma promessa feita aos homens, não aos anjos.

O que o salmista David expressou é uma realidade, o homem não é um ser digno da atenção do Criador, mas Ele nos criou um pouco inferiores aos anjos, e para que o Messias se manifestasse conforme o planejado, Ele assumiu o corpo que veio a ser chamado de Yeshua, um corpo humano tão limitado quanto qualquer outro homem, portanto, temporariamente inferior aos anjos, para que pudesse experimentar a morte em favor de toda a humanidade.


Encontramos alguns críticos do plano do Eterno argumentando que Deus não morre, portanto se Yeshua morreu então não era o Messias divino, mas me surpreende a falta de entendimento dessas pessoas, é fato que Deus não morre, mas o corpo que o Messias assumiu temporariamente era mortal, então esse corpo chamado Yeshua morreu, como também ressuscitou.

O mesmo raciocínio se aplica a nós, a morte não acaba conosco, o nosso corpo vai ao pó, mas o que somos nós de verdade, o nosso espírito, esse permanece para sempre. Mesmo a segunda morte, que é a separação definitiva da presença do Eterno, não faz com que o ser humano deixe de existir.


E quanto ao Messias, após a sua morte, voltou a receber a coroa com glória e honra, assim novamente superior aos anjos, sua criação.


Uma parte do Eterno se humilhou tornando-se humano para dar acesso aos humanos à glória integral do Eterno;

Ao levar muitos filhos à glória, convinha que Deus, por causa de quem e por meio de quem tudo existe, tornasse perfeito, mediante o sofrimento, o autor da salvação deles.

Ora, tanto o que santifica quanto os que são santificados provêm de um só. Por isso Yeshua não se envergonha de chamá-los irmãos. Hebreus 2:10,11

É grandioso o entendimento do autor, o sofrimento do autor da nossa salvação foi o que tornou perfeito todo o processo, a tal ponto que os salvos são elevados a um tal nível de santificação que nos aproximamos do divino, como um filho é próximo ao pai, é neste nível que Yeshua nos chama de irmãos.


Mais uma declaração de que o Messias se rebaixou à condição humana e mortal;

Ele diz: "Proclamarei o teu nome a meus irmãos; na assembleia te louvarei".

E também: "Nele porei a minha confiança". Novamente ele diz: "Aqui estou eu com os filhos que Deus me deu".

Portanto, visto que os filhos são pessoas de carne e sangue, ele também participou dessa condição humana, para que, por sua morte, derrotasse aquele que tem o poder da morte, isto é, o diabo, e libertasse aqueles que durante toda a vida estiveram escravizados pelo medo da morte. Hebreus 2:12-15

Vemos que o autor pesquisou muito na Torá para compreender todo o plano divino, ele entendeu a profundidade do privilégio dos salvos e a grandiosidade da salvação.

Yeshua anunciou o inqualificável ser divino para os seus seguidores como nunca antes foi entendido por qualquer outra pessoa, Ele reuniu os seus irmãos e os apresentou como os filhos do Eterno, Ele desceu ao nível dos seus irmãos como humanos para que a sua morte derrotasse o adversário que escravizou o homem desde o princípio quando sugeriu o pecado à recente criação de Deus.

O ser humano tem medo da morte, e não é sem motivo, sem a redenção feita pelo parente remidor (o nosso irmão unigênito) a expectativa é de pavor terrível por não ter garantia nenhuma de ter algo na eternidade, mas os resgatados não temem o mundo vindouro.


A conclusão é óbvia, somos o alvo do Messias;

Pois é claro que não é a anjos que ele ajuda, mas aos descendentes de Abraão.

Por essa razão era necessário que ele se tornasse semelhante a seus irmãos em todos os aspectos, para se tornar sumo sacerdote misericordioso e fiel com relação a Deus e fazer propiciação pelos pecados do povo.

Porque, tendo em vista o que ele mesmo sofreu quando tentado, ele é capaz de socorrer aqueles que também estão sendo tentados. Hebreus 2:16-18

Do que conhecemos a respeito dos anjos, o que não é muita coisa, eles não precisam de ajuda, eles não precisam de redenção, eles estão na presença do Eterno dia e noite, então são os descendentes de Abraão (filhos da promessa) que são o alvo de todo plano em que Yeshua é o personagem principal.

Por isso se tornou semelhante a nós em TODOS OS ASPECTOS, para poder ser de fato o Messias remidor, fazendo o sacerdócio máximo e perfeito por quem sabe o que é ser um humano, entendendo todas as nossas fraquezas, dificuldades e tentações, valorizando em muito a nossa vitória.

Sim, os que vencem em Yeshua são grandes vencedores e o Eterno sabe valorizar isso.


Esta é a primeira parte do estudo da carta aos judeus messiânicos, acompanhem a próxima parte.

Escrito por

Rosh Gilberto Branco

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